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  • Dr. Rafael Arceno

Alcoolismo feminino aumentou 30% na última década no Brasil

O alcoolismo progride no corpo feminino mais facilmente do que no dos homens, e mesmo mulheres sem dependência alcoólica têm maior risco de desenvolver transtornos mentais e patologias físicas devido ao consumo contínuo de álcool.



Nas últimas informações divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) antes da pandemia, o número de brasileiros que ingerem bebida alcoólica semanalmente subiu, e a alta foi impulsionada pelas mulheres, embora seja mais prevalente entre os homens. Em pouco mais de uma década, o consumo de álcool pela população feminina cresceu aproximadamente 30%.

Quando se trata de alcoolismo, os números são também muito alarmantes. Antes havia sete vezes mais homens que faziam o uso abusivo e prejudicial do álcool do que mulheres, mas atualmente a prevalência entre os sexos é cada vez mais semelhante. Entre as que fazem consumo, uma em cada quatro mulheres fazem consumo pesado de bebidas alcoólicas, sendo que 2% desenvolve algum grau de dependência.


Alcoolismo progride mais rápido nas mulheres

Os dados são preocupantes, visto que o consumo inadequado de álcool está associado a doenças de vários sistemas, que nas mulheres acabam progredindo mais rapidamente.

Isso acontece pois, geralmente, o sexo feminino:

  • apresenta menor concentração de enzimas que fazem a metabolização do etanol (álcool desidrogenase e aldeído desidrogenase);

  • possui maior absorção intestinal de álcool;

  • possui maior proporção de gordura corporal;

  • possui menor quantidade de água.

Por esses fatores, as mulheres têm maior concentração de etanol no sangue após a ingestão da mesma quantidade de bebida, quando comparadas aos homens.

Riscos de doenças

Mesmo sem dependência, mulheres que consomem mais gramas de álcool por dia têm maior risco de desenvolver:

  • câncer de mama;

  • osteoporose;

  • hipertensão arterial;

  • acidente vascular cerebral (AVC);

  • cirrose;

  • esteatose hepática (gordura no fígado).

Quando se trata de transtornos psiquiátricos, a grande maioria é mais comum naquelas que abusam do consumo alcoólico quando comparadas aos homens que também exorbitam e mulheres que não bebem. Não restrito a doenças, mas o álcool também está relacionado a grande parte dos acidentes de trânsito, violência e problemas familiares.


Padrões no consumo de álcool

Segundo análises do Programa Saúde Mental da Mulher (ProMulher) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, dirigido pelo Dr. Joel Rennó Júnior, que é também coordenador da Comissão de Estudos e Pesquisa da Saúde Mental da Mulher da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), há dois padrões do consumo de álcool entre as mulheres:

  1. as que estão em fase de transição do período reprodutivo para o não-reprodutivo, período chamado de climatério, bebem isoladamente como forma de enfrentamento de conflitos e alívio de dores psíquicas, decorrentes das pressões pelas responsabilidades que têm em várias esferas de suas vidas;

  2. as jovens, que costumam beber quando há interação social por busca de prazer.

Pandemia potencializou


Tudo isso foi agravado pela pandemia de Covid-19, devido às altas cargas de estresse e limitações das atividades que trazem alívio.


Por isso, mesmo em tempos difíceis, é imprescindível que se busque estratégias de enfrentamento desse cenário que não sejam maléficas, mas realmente resolutivas, não efêmeras.


Procurar um profissional da saúde mental auxiliará nos problemas trazidos pela rotina desafiadora e também nas compulsões desenvolvidas. Um tratamento adequado daquilo que é motivo do exagero no consumo de álcool pode prevenir o desenvolvimento de muitas adversidades.


Rafael Arceno

Médico Psiquiatra

CRM-SC 18.994 | RQE 14.708


Colaboração: Maria Eduarda Mendes Botelho

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