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  • Dr.ª Julia Pizzolatti Pieri

Setembro Amarelo: o isolamento da pandemia pode reforçar a ideação suicida

Um dos principais sintomas de uma pessoa com ideação suicida é o isolamento social, e a pandemia tem forçado que todos se isolem para conter o coronavírus, fazendo com que o número de tentativas de suicídio aumentasse, especialmente entre jovens.



Setembro Amarelo na Pandemia


Este é o segundo Setembro Amarelo que vivenciamos dentro da pandemia de Covid-19, causada pelo coronavírus Sars-CoV-2. A campanha é uma parceria entre o Centro de Valorização da Vida (CVV), o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).


Desde 2015, a campanha anual tem por objetivo estimular a prevenção ao suicídio, causado principalmente por sintomas depressivos e especialmente entre a população jovem. Porém, no atual cenário pandêmico, a situação tem piorado em todo mundo, inclusive no Brasil.


Estatísticas no Brasil e no mundo


O número de vidas perdidas por suicídio ultrapassa o número combinado de mortes por homicídios e guerras.


A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima 800 mil mortes anuais por suicídio ao redor do planeta (1 pessoa a cada 40 segundos) e que alguém tenta tirar a própria vida a cada 3 segundos.


No Brasil, os dados de 2020 mostravam que, em média, 1 brasileiro tira a própria vida a cada 45 minutos, a 3ª causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. Já em 2021, segundo o CVV, "atualmente 32 pessoas por dia tiram a própria vida".


A média brasileira de mortes por suicídio (6 a 7 mil mortes por 100 mil habitantes) é considerada abaixo da média mundial. No entanto, o Brasil tem seguido um padrão de crescimento desse número.


Cada uma dessas mortes tem um impacto importante sobre a vida de outras 6 pessoas, sendo devastador para família e outras pessoas de convívio.


Segundo estudo realizado pela Unicamp, 17% dos brasileiros, em algum momento, pensaram seriamente em dar um fim à própria vida e, desses, 4,8% chegaram a elaborar um plano para isso. Em muitos casos, é possível evitar que esses pensamentos suicidas se tornem realidade.


Estudos internacionais comprovam aumento


Em junho de 2021, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos revelaram que as tentativas de suicídio aumentaram em 50% entre jovens de 12 a 17 anos, especialmente meninas.


Segundo este artigo da Globo, que cita a reportagem internacional da CNBC, os casos pioraram durante a pandemia de covid-19. Os números de atendimentos de emergência por suspeita de tentativa de suicídio, tentativas de suicídio e lesões autoprovocadas não suicidas foram coletados pelo Programa Nacional de Vigilância Sindrômica em 49 Estados norte-americanos.


"Entre o fim de julho e o fim de agosto, o número de atendimentos em prontos-socorros americanos por tentativas de suicídio, entre garotas de 12 a 17 anos, aumentou 26%, com relação ao mesmo período do ano anterior.
Em 2021, este número foi ainda maior. Entre fevereiro e março deste ano, o aumento nos atendimentos a garotas que tentaram tirar a própria vida cresceu 50%, com relação aos mesmos meses de 2020. (...) Entre as causas para as tentativas de suicídio entre as jovens está o distanciamento social imposto pela pandemia, com o consequente afastamento da escola e dos amigos."

De acordo com a PebMed, um outro estudo com quase 20 mil pacientes jovens, realizado no Texas (EUA) e publicado na revista Pediatrics, revelou um crescimento preocupante dos números:


A taxa da ideação suicida foi de 1,6 vezes maior em março de 2020 do que em março de 2019 e 1,45 vezes maior em julho de 2020 do que em julho de 2020. Já a taxa de tentativas de suicídio foi maior em 2020 do que em 2019, sendo os valores de 1,58 (fevereiro), 2,34 (março), 1,75 (abril) e 1,77 (julho).


Os pesquisadores perceberam que os períodos de aumento do risco [de suicídio] coincidiram com os períodos de aumento no número de casos de Covid-19 e com o enrijecimento do isolamento social, levando os adolescentes a interromperem projetos pessoais ou acadêmicos, assim como aumentando o medo dentro das comunidades.

Falar é a melhor prevenção


De acordo com o CVV, a primeira medida preventiva é a educação. Durante muito tempo, falar sobre suicídio foi um tabu, havia medo de se falar sobre o assunto.


De uns tempos para cá, especialmente com o sucesso da campanha Setembro Amarelo, esta barreira foi derrubada e informações ligadas ao tema passaram a ser compartilhadas, possibilitando que as pessoas possam ter acesso a recursos de prevenção.


Falar é a melhor solução, mas é preciso falar com responsabilidade, de forma adequada e alinhada ao que recomendam as autoridades de saúde, para que o objetivo de prevenção seja realmente eficaz.


Sintomas do comportamento suicida


Segundo o CVV, podemos ficar atentos a alguns sinais de comportamento, em caso de suspeita de ideação suicida:


  • o isolamento;

  • mudanças marcantes de hábitos;

  • perda de interesse por atividades de que gostava;

  • descuido com aparência;

  • piora do desempenho na escola ou no trabalho;

  • alterações no sono e no apetite;

  • frases como “preferia estar morto” ou “quero desaparecer”.


Esses são alguns sinais que podem indicar necessidade de ajuda.


A ajuda pode vir de um amigo, parente, colega de trabalho ou escola, professores, ou alguém que está próximo a quem precisa e também dos voluntários do CVV, que são treinados para conversar com pessoas que estejam passando por alguma dificuldade e que possam pensar em tirar sua vida.


Para conversar com um voluntário, basta ligar para o telefone 188, gratuito, que funciona 24 horas. Também é possível mandar um e-mail ou falar pelo chat, que podem ser acessados pelo site do CVV.


Campanhas ajudam


Iniciativas como o Setembro Amarelo e outras campanhas sobre o preconceito para com as doenças psíquicas e pessoas que delas padecem (como o caso da campanha da ABP “Psicofobia é Crime”, por exemplo) podem ajudar - e muito - a abrir o diálogo sobre o tema, de maneira responsável e sem sensacionalismos, e possibilitar medidas efetivas para o combate.


Por isso, debater o tema, sem preconceitos, de maneira responsável e empática, pode ajudar a implementar ainda mais ações que aliviem o sofrimento e que, principalmente, salvem vidas.



Tenha sempre um profissional capacitado para auxiliar nessa caminhada. Cuide de sua saúde mental.


Julia Pizzolatti Pieri

Médica Psiquiatra

CRM-SC 22.561 | RQE 18.739

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